Quarta-feira, 16 de agosto de 2017
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Dois cafés e a conta com Artur Ricardo 

O professor de Educação Física que criou ao lado do viaduto de Pilares um dos melhores projetos sociais de tênis do mundo

Na terça-feira passada, a forte chuva alagou a quadra e a aula teve que ser cancelada. Mas em breve isso não será mais problema. A cobertura está sendo reformada e fica pronta este mês. Em seguida, será a vez do piso, que apresenta rachaduras. Enfrentar obstáculos faz parte do cotidiano do professor de Educação Física Artur Ricardo [CREF 024009-G/RJ]. Ex-atleta profissional do Fluminense, ele trabalhou na CBF, com futebol feminino, e na Suderj, com ginástica para terceira idade. Desencantado com o trabalho no governo estadual, resolveu criar seu próprio projeto social. Cogitou futebol, mas já havia muitas iniciativas. Até que pensou: “Por que não tênis?” Fez um estágio de três meses no Fluminense com o professor Gilberto Macaio [CREF 010778-P/RJ] e abriu em 2011 o projeto Tênis Solidário, que ocupa uma quadra de futebol de salão quase embaixo do viaduto de Pilares, na Zona Norte do Rio, e que já atendeu entre 200 e 250 alunos. As aulas são terças e quintas, das 16h às 18h. “Não tiro um centavo do projeto. Vivo das aulas de musculação que dou num condomínio, da escolinha popular de tênis para adultos que dou aqui e da administração da quadra, que é alugada para jogos de futebol de salão e festas”, diz ele, de 46 anos, que mora há 15 em Pilares.

Revista O Globo: Qual o perfil dos alunos do Tênis Solidário?


Artur Ricardo:
São de escolas públicas, entre 7 e 17 anos, com exceção de um rapaz com retardo mental de 33, que está com a gente desde o início. A maioria dos 37 alunos é de Pilares, mas tem gente de Vicente de Carvalho, Abolição e Cavalcanti. Estamos perto do Morro do Engenho e do Morro do Urubu, que são rivais, mas temos alunos das duas favelas aqui. É tudo gratuito. Não cobro nada, só uma coisa: disciplina. Não pode chegar mais de 15 minutos atrasado, se vier sem uniforme não faz aula e se for reprovado na escola sai. Eles ganham uniforme, raquete, bolas e lanche, têm direito a médico e dentista uma vez por ano, vão a locais como Rio Open, Parque de Madureira e Maracanã, recebem noções básicas de etiqueta, português, inglês e como não ser corrupto no Brasil. As mães dizem que os filhos ficam mais organizados e responsáveis. No início, havia uma desconfiança, já que tênis tem fama de ser esporte de elite. Uma aluna disse que via as partidas pela TV e nunca imaginou que iria jogar de graça, e perto de casa. Um pai elogiou: “É um ambiente familiar e saudável, evita que as crianças fiquem na rua.” Um avô fala até em Padrão Tênis Solidário de qualidade.

Você acaba de criar outro projeto, Tênis É 100. Como é?

A meta é visitar cem escolas públicas em quatro anos. Criei para massificar o tênis. Já fomos a duas municipais (Guimarães Rosa, em Magalhães Bastos, e Princesa Isabel, em Santa Cruz) e vamos esta semana à terceira, Montese, na Cidade Alta. Eu deixo cinco raquetes, 50 bolas, uma rede, um manual e um vídeo. E em duas horas ensino os fundamentos básicos ao professor de Educação Física. É só o pontapé inicial. Ele pode continuar a se capacitar aqui no Tênis Solidário.

Fale do aluno Cauã Ostenta, que tem se destacado.

Ele tem 10 anos e começou com a gente, aos 6. Em novembro passado, entrou para o Fluminense, mas continua coordenado por nós. Em 2016, ele disputou dez torneios. Foi vice em três e ganhou dois. Nada mal para o filho de uma diarista que aprendeu a jogar numa quadra de futsal adaptada. Agora, no Fluminense, ele tem mais dois treinadores. Em julho, Cauã e João vão passar uma semana na IMG, nos EUA, principal clínica de tênis do mundo, por conta do Rio Open. Pretendo mandar o Cauã morar e treinar na Alemanha daqui a quatro anos.

Como você sustenta o Tênis Solidário?

Meu maior orgulho é manter o projeto há seis anos sem um centavo de dinheiro público. Temos parceria com o Fluminense e o Rio Open, e apoio de dez empresas privadas, três delas alemãs. Somos um núcleo tricolor, e a partir deste mês dez alunos vão treinar lá. Como disse um pai: “O projeto muda vidas. A do meu filho já mudou.”

Fonte:  O Globo

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