Sexta-feira, 18 de agosto de 2017
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Legado olímpico para os treinadores é investigado na USP 

Grandes eventos esportivos como a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos costumam mobilizar um país inteiro: tanto socialmente, no engajamento das torcidas, quanto no investimento para infraestrutura e para os atletas. Legados como a memória histórica e os ginásios utilizados na competição são rotineiramente citados, mas o trabalho dos treinadores ― principalmente na Olimpíada ― costuma ficar em segundo plano. A pesquisadora  Ana Lúcia Padrão dos Santos [CREF 007308-G/SP] da Escola de Educação Física e Esporte da USP (EEFE-USP) procura investigar quais foram os aprendizados na formação de treinadores deixados pelos Jogos no Rio de Janeiro de 2016. Os resultados iniciais apontam para uma falta de política educacional, principalmente no que diz respeito à formação do técnico, tanto nas especificidades de cada modalidade quanto nos aspectos socioeconômicos que rodeiam a competição.

A pesquisa, financiada pela Fapesp, ainda está em estágio preliminar de análise de dados, mas, após algumas entrevistas e levantamento de dados, a professora afirma que algumas diretrizes já podem ser tomadas. “Uma das perguntas que faço aos entrevistados é: ‘qual é a importância do treinador?’. E todo mundo responde que é óbvia, mas se é tão óbvia, o que foi planejado para eles nesse sentido? Nos últimos sete anos de preparação, o que foi feito?”, questiona Padrão. Casos isolados de algumas confederações que fornecem cursos de capacitação para técnicos existem, mas não atingem o público de uma maneira eficiente. Segundo Ana Lúcia: “Vejo pouca conversa entre ensino superior, a educação e a articulação da atuação profissional. Acho que as universidades perderam a oportunidade de inserir o aluno de educação física no contexto dos jogos olímpicos”, problematiza.

O curto tempo entre o anúncio da cidade sede e o início dos Jogos é apontado como um dos principais culpados pela falta de preparo neste setor do esporte. Entretanto, a pesquisadora rebate esse argumento com o histórico de competições internacionais sediadas no Brasil: desde 2002, foram seis. Contrapondo-se aos investimentos altos na construção de pistas, estádios e ginásios, os treinadores não receberam tamanho cuidado, causando certa contradição: “Está se criando uma rede de centro de treinamentos de excelência. E, paralelamente, qual foi o investimento e desenvolvimento de treinadores? Como você vai encher esses centros de excelência se você não tem quem ensine?”.

Para Ana Lúcia, o buraco vai ainda mais embaixo e atinge a imagem de um treinador para o público geral. Segundo suas pesquisas, são raros os casos em que o técnico é tão valorizado quanto o atleta. Bernardinho, o icônico comandante da seleção masculina de vôlei, é um dos exemplos mais sólidos de como a aplicação de verba e planejamento educacional se aliam à relevância de sua profissão: “O voleibol, dentro da sua confederação, tem uma Universidade Corporativa do Voleibol, que fica no Rio de Janeiro, e eles têm cursos específicos pra formação de treinadores com avaliação”, a pesquisadora argumenta. “Os atletas não chegam na mão do Bernardinho ou do Zé Roberto porque os dois fazem aquela pessoa, de uma hora pra outra, virar um atleta de seleção. Tem todo um trabalho em volta.”

A saída seria pela educação. Ana Lúcia acredita que a presença de diversas modalidades nas aulas do ensino básico ao superior, juntamente de profissionais bem instruídos, auxiliaria tanto na formação de esportistas quanto de treinadores. “São muitas modalidades esportivas, por exemplo, pentatlo moderno. Quem tem contato com ela? Vou criar um centro de excelência em pentatlo moderno, e como começo a treinar isso? Quantas faculdades, mesmo de educação física, tem um semestre de canoagem, taekwondo?”.

O ensino do contexto social de um grande evento esportivo também teria crucial importância para o treinador. A professora atribui uma grande importância a esse aspecto: “Quando a gente tenta descobrir quais são os problemas que atravancam o avanço do treinador ou do esporte, se coloca como os problemas sociais interferiram, a política interferiu, a economia atrapalhou”. A oportunidade de refletir sobre soluções para essa questão, no entanto, ainda é inexistente: “Mas, quando pensamos na capacitação dos treinadores, pouquíssimas instituições ofereceram cursos ou debates na área sociológica, por exemplo.”

Apesar das deficiências neste setor, o Brasil ainda larga na frente de diversos países, principalmente na parte jurídica. O profissional de educação física precisa da autorização do Conselho Regional de Educação Física para estar apto a exercer qualquer atividade de treinador, algo raro no mundo todo: “Temos uma vantagem: até hoje não encontrei um país que exija que se faça um curso de educação física antes de ser treinador. O Brasil tem um código de ética profissional importante”, esclarece a professora. “A gente não está atrás, pelo contrário. Agora, que poderia ter sido melhor aproveitada essa experiência [olímpica], poderia, eu tenho a impressão.”

Fonte:  AUN-USP

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